
Joana* foi agredida pelo ex-marido após não aceitar assumir uma multa de trânsito dele e ameaçar mudar o status de relacionamento no Facebook.
“Até então, ele nunca tinha me agredido. Em outras vezes que tentei me separar, ele nunca aceitou. Nesse dia, ele veio até o quarto, me arrastou pelo braço até a cozinha, me colocou contra a parede e começou a me enforcar. Tinha uma faca perto, ele pegou e me cortou com ela no pescoço e depois na barriga”, contou a vítima na época do ocorrido. O agressor foi denunciado, mas não foi preso.
Quase um ano depois, Joana conta que ainda luta contra os traumas causados pelo agressor.
“Acho que minha maior batalha é cuidar da saúde mental. Dor é quando eu me olho no espelho e vejo as cicatrizes que carrego em meu corpo e o psicológico cheio de traumas para o resto da vida! Causada por alguém que tanto ajudei. A mulher acredita que por causa dos filhos devemos lutar e suportar tudo, na esperança de uma mudança que nunca vai existir! Nos primeiros 6 meses não conseguia dormir na minha casa, havia muito medo de entrar no quintal e tentar mais uma vez tirar a minha vida, medo de andar na rua, qualquer barulho à noite eu já não conseguia dormir de medo. Foram 10 meses de pesadelos noturnos, os sonhos sempre eram iguais: ele com uma faca atrás de mim e eu desesperada fugindo. Foram 11 meses de crises de gritos, choros, de revolta, depressão acompanhada de injustiça, já que ele não foi preso. O meu bebê foi o meu único motivo de continuar vivendo, pois o suicídio em momentos de dor muitas vezes foi pensado. O agressor sempre vai se fazer de inocente, inventando histórias que não existem, te pondo como a louca, culpada e ele a vítima.”
Logo após a tentativa de homicídio, Joana buscou ajuda, após orientação da delegada responsável pela delegacia da mulher. Foi no Espaço de Convivência Paz e Bem (EcoPaz) que ela encontrou um caminho para fugir do medo.
A EcoPaz é um projeto totalmente voluntário, onde mulheres estão todos os dias para nos receber, abraçar, conversar com todo amor e carinho. É um lugar de paz! Que ajuda as mulheres toda a dor da alma. Eu fui uma das primeiras a fazer terapia, toda semana com a psicóloga. Eu contava os dias e as horas para chegar o dia da minha sessão na EcoPaz. Eu sempre entro com o coração e alma, e saio com força, saúde e brilho para os próximos dias. Saúde mental é vida. Hoje eu não vivo mais sem terapia, não vivo mais sem este acolhimento. Elas me abraçaram e ajudaram a sustentar tantas coisas horríveis que eu vivi. Quando eu falto as sessões ou passo tempo sem ir, é como se tudo ficasse escuro de novo. Eu dedico a minha recuperação, a minha saúde à EcoPaz, que meu deu todo apoio que meu coração necessitava. Elas foram presentes. Ali eu renasci a minha vida de novo.”
A ajuda que ela recebeu no projeto tem feito com que ela use sua voz e sua história para incentivar outras mulheres vítimas de violência.
“Se ame e não case com a morte. Não se submeta ao pouco com medo de ficar sem. Se relacionar com alguém que só te faz sofrer é se entregar à morte e esperar que ela aconteça. Cuidado com o que você aceita, com o que você ignora para ficar bem. Pare de tolerar o intolerável. Não existe amor onde só tem dor, humilhação, agressão. Não existe amor onde há traição, falta de respeito, acusações e mentiras. Não perca tempo esperando uma mudança de quem nunca vai mudar. O tempo está passando e sua vida está parada porque você dá chances a quem não merecia nada. O puxão de cabelo hoje pode ser o soco de amanhã. O soco de amanhã pode ser o tiro posteriormente. No fim ele vive e você morre. O que é bom só vai chegar quando você soltar o que é ruim. Aprendi que o narcisista finge perfeitamente ser o que nunca foi para conquistar a vítima. Cuidado, o amor pode ser tudo, menos violento! Eles sempre mostram sinais! Jamais ignores esses sinais! A minha vida hoje está mil vezes melhor, o recomeço sempre será difícil, mas será mil vezes melhor do que perder a vida ao lado de um agressor que promete mudança, mas só está te enganando. Nada é mais FORTE do que uma mulher que se reconstruiu!
Lei 11.340 – Lei Maria da Penha
A Lei 11.340, popularmente conhecida como Lei Maria da Penha, foi sancionada no Brasil no dia 7 de agosto de 2006, com o objetivo de criar mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. A legislação configura como violência doméstica qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial. O nome da lei é uma homenagem a Maria da Penha Maia Fernandes, que no ano de 1983 foi vítima de dupla tentativa de feminicídio por parte do marido.
Ligue 180
O Ligue 180 é um serviço de utilidade pública essencial para o enfrentamento à violência contra a mulher. Além de receber denúncias de violações contra as mulheres, a central encaminha o conteúdo dos relatos aos órgãos competentes e monitora o andamento dos processos.
O serviço também tem a atribuição de orientar mulheres em situação de violência, direcionando-as para os serviços especializados da rede de atendimento. No Ligue 180, ainda é possível se informar sobre os direitos da mulher, a legislação vigente sobre o tema e a rede de atendimento e acolhimento de mulheres em situação de vulnerabilidade.
EcoPaz
Um dos locais de acolhimento para mulheres vítimas de violência em Guarapari é o EcoPaz (Espaço de Convivência Paz e Bem), inaugurado no ano passado. O espaço é voltado para o acolhimento emocional e afetivo de mulheres.
Local: Rua: Horácio Santana, 434 – 2º andar
Parque Areia Preta
Dias: Segunda-feira à sexta-feira
Horário: das 14h às 18h
Contato: [email protected]
*A reportagem optou por preservar o nome real da entrevistada.