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Coluna Raphael Abdalla

Coluna Palavra de Fé: Lança o teu pão sobre as águas

Por Redação Folhaonline.es
Foto: reprodução

Há textos bíblicos que nos desafiam porque não se encaixam imediatamente na lógica humana. Entre eles está a exortação de Eclesiastes 11:1: “Lança o teu pão sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás”. À primeira vista, a imagem parece estranha. Lançar pão sobre as águas soa como desperdício. Não há controle, não há garantia, não há retorno imediato. No entanto, é justamente aí que reside a profundidade do ensino: viver pela fé exige ações que, aos olhos humanos, parecem arriscadas, mas que, aos olhos de Deus, são sementes.

O autor de Eclesiastes nos convida a abandonar a obsessão pelo controle absoluto dos resultados. Vivemos em um tempo que valoriza métricas, previsões e retornos rápidos. Queremos investir apenas onde há segurança, amar apenas quando há reciprocidade garantida, servir apenas quando há reconhecimento visível. Mas a espiritualidade bíblica segue outra direção. Lançar o pão sobre as águas é agir com generosidade, fé e obediência, mesmo quando não conseguimos enxergar o desfecho.

Esse “lançar” envolve atitudes concretas. É o gesto de quem reparte, de quem socorre, de quem semeia o bem sem calcular excessivamente o retorno. É a palavra dita no momento certo, ainda que não saibamos como será recebida. É o cuidado com alguém que talvez nunca possa retribuir. É o investimento em vidas, em projetos e em causas que parecem incertas. A Escritura não ignora a possibilidade de demora. Ela afirma: “depois de muitos dias o acharás”. Há um tempo entre o lançar e o colher. E esse intervalo é o espaço onde a fé é provada.

A ansiedade moderna nos torna impacientes com esse intervalo. Queremos resultados imediatos, respostas instantâneas, recompensas visíveis. No entanto, Deus trabalha em processos. Aquilo que é lançado com sinceridade diante Dele não se perde. Pode não voltar da forma esperada, nem no tempo desejado, mas retorna. A lógica do Reino não é a da perda, mas a da multiplicação silenciosa. O pão lançado não desaparece; ele percorre caminhos que não vemos.

Há também uma dimensão de coragem nesse texto. Lançar o pão sobre as águas é recusar-se a viver paralisado pelo medo. O mesmo capítulo segue dizendo que quem observa o vento nunca semeará. Ou seja, quem espera condições perfeitas jamais dará o primeiro passo. Sempre haverá riscos, incertezas e variáveis fora do nosso controle. A fé, porém, não elimina os riscos; ela nos move apesar deles.

Em um mundo marcado pelo individualismo, essa palavra ressoa como um chamado à generosidade persistente. Não se trata de imprudência, mas de confiança. Não é negligência, mas entrega. É compreender que nossa vida não está fundamentada apenas naquilo que conseguimos reter, mas também naquilo que decidimos liberar.

Talvez você esteja vivendo um tempo em que parece que tudo o que foi feito não trouxe retorno. Esforços não reconhecidos, sementes que parecem não germinar, gestos que ficaram sem resposta. O texto bíblico não ignora essa sensação. Ele apenas nos lembra que o tempo de Deus não coincide com o nosso. Há colheitas que são tardias, mas não inexistentes.

Lançar o pão sobre as águas é, em última instância, um ato de fé no caráter de Deus. É crer que Ele vê, que Ele guarda e que Ele faz frutificar. É viver com as mãos abertas, semeando no presente e confiando no futuro. Porque, ainda que demore, aquilo que é lançado diante Dele jamais se perde.

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