
(*) Poema de Gilceia Lima – Guarapari/ES – Pelas vítimas do crime da Vale, em Brumadinho
Não!
Não era esse o barro, minha querida.
Esse é terra fedida,
Terracota nada arte.
Era essa minha cota?
Minha parte?
A lama que me aprisiona, esse barro,
É a massa da ambição,
Mistura do suor alheio
Com a ganância de quem se sabe bem a que veio.
É maldição,
Escarro.
Lama que levou meu corpo, meu ser,
Lavou de sujeira meu vale,
Veio em enxurrada,
Nem tempo deu de um adeus,
Um alô,
Um rever.
Lama fedida
Que veio varrendo vidas.
E meus sonhos foram levados,
Barganhados.
Minério virou dinheiro
Lá seguro nos bancos.
Aqui eu sou o rejeito.
Eu e outros tantos.
Desrespeito!
Nos bancos e bolsas, lucros bem guardados.
Aqui, nós, para sempre soterrados.
Isso Vale?
Importa se ficou quem me ama?
Agora a lama é meu leito,
Minha cama.
Terracota da arte que não criei.
Escultura desumana,
Inacabada.
A antiarte que não desejei.
Pietá!
Pietá!
Eu no lodo do podre minério,
Da ganância,
Do não sério.
Isso Vale?