
São tantas Páscoas. Tantas datas que inventamos para dobrar o tempo sobre si mesmo, como se precisássemos de feriados em vermelho no calendário para acreditar que o tempo volta — que algo se repete, que nada é linear, que há volta.
Circulamos em gestos repetidos, cumprindo o protocolo sazonal da redenção, enquanto o tempo linear avança sem piedade — cortando linhas retas e sangrentas pela história.
A ironia atinge seu ápice quando olhamos para o altar das nossas devoções modernas e percebemos quem realmente venceu a batalha narrativa. Spoiler: não foi o homem da cruz. Quem triunfou, de forma acachapante, foi um lagomorfo distribuidor de glicose.
A Páscoa cristã — com seu peso de sacrifício, morte e ressurreição — e a Pessach judaica — a épica libertação de um povo escravizado — sobreviveram a milênios de perseguições e impérios que as caçavam. Mas bastou que protestantes alemães do século XVII inventassem a lenda do Osterhase e que a indústria do açúcar, séculos depois, embrulhasse ovos em papel brilhante, para que o sagrado fosse nocauteado. O sangue do cordeiro e a travessia do Mar Vermelho perderam para uma guloseima que custa o equivalente a uma pequena hipoteca. O coelhinho da Páscoa olhou para o madeiro, depois para o Cristo, e sussurrou: “Deixa comigo, eu assumo daqui”.
Enquanto bombas caem sobre Jerusalém — antiga ou nova — nós respondemos com a suprema diplomacia do cacau. Mísseis rasgam o céu; nós desembrulhamos ovos crocantes. Fingimento por fingimento, escolhemos o nosso.
No fundo, como já bradava Elis Regina com aquela dor rasgada na voz, percebemos que somos como nossos pais, que foram iguais aos nossos avós. A roupagem muda, o recheio se sofistica, mas a essência da nossa fuga permanece intocada. Na verdade, não buscamos reflexão sobre o sacrifício alheio — buscamos uma desculpa oficial para parar o calendário, colocar uma sunga e descer para a praia.
É por isso que a Sexta-feira da Paixão é tão amada. Não pelo peso do Gólgota, mas porque garante um fim de semana prolongado. A via-crúcis contemporânea não envolve carregar madeira pesada; envolve enfrentar cinco horas de trânsito sob um sol de trinta graus, com o isopor no porta-malas, rezando para que a cerveja não esquente. E, na volta, passar em frente à igreja — já com a pele assada de sol — e fazer um sinal da cruz apressado pela janela do carro. Pompa e ritual, sim. Vivência? Rara.
Se essas festas fossem sinceras — não encenações de paz, mas pausas reais no fluxo do sangue —, o paraíso não seria uma promessa futura. Estaria aqui, no gesto sem plateia, na data que não precisa de data para acontecer. Estaria no silêncio que ninguém documenta.
Quem escreve isto não é um homem sem fé. Pelo contrário. Sou um realista com fé — aquela fé profunda, teimosa e quase desesperada de que, algum dia, tudo isso que acabei de escrever seja apenas uma grande, bela, impossível mentira.