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Coluna Marcelo Moryan

Coluna Marcelo Moryan: O Conto da “Aia” é o sonho da extrema direita

Por Redação Folhaonline.es
Foto: Marcelo Moryan

Gilead é o nome do pesadelo. June, o nome da protagonista que se recusa a dormir. Se essas duas palavras ainda não significam nada para você, pergunte-se: o que é preciso para que uma mulher grave um mantra de resistência no rodapé de um armário — sabendo que vai morrer — e deixe essa frase como herança para a próxima ocupante da cela? Essa é a pergunta que O Conto da Aia faz. A resposta, disponível na Netflix em seis temporadas, é o retrato mais preciso do que a extrema direita sempre sonhou em silêncio — mas nunca teve coragem de admitir em voz alta.

Gilead é uma teocracia fundamentalista instalada nos Estados Unidos depois de um golpe que os cidadãos, na mais pura tradição de quem engole sapo como se fosse filé, chamaram de “proteção”. June é a aia — uma mulher reduzida à função de útero ambulante, vestida de vermelho, estuprada mensalmente sob cerimônia religiosa para gerar os filhos dos Comandantes. Se isso parece distante do Brasil de 2026, é porque o alarme ainda não tocou alto o suficiente para quem prefere acreditar que a ficção é só entretenimento.

O que a autora Margaret Atwood concebeu não é especulação: é o organograma dos nossos fundamentalistas de plantão. Gilead não é uma distopia que se aproxima — é o laboratório onde a extrema direita já testa protótipos enquanto jura, com a mão sobre a Bíblia e o olho no dízimo, que está “salvando a família brasileira”. A força da obra nunca esteve em profetizar o absurdo, mas em catalogar o que já existia no arquivo histórico do autoritarismo.

A primeira cláusula é a Bíblia como arma de repetição. Em Gilead, os Comandantes extraem versículos do Antigo Testamento para justificar estupro institucionalizado, escravidão e violência — um amálgama cruel em que qualquer barbárie encontra respaldo numa linha descontextualizada.

No Brasil real, pastores e padres sobem ao púlpito para pregar pureza enquanto mantêm o próprio submundo de podridão. Quantos dos que esbravejam contra o “inimigo” nos púlpitos de Brasília foram flagrados em bordéis clandestinos, em escândalos de pedofilia, em desvios de dízimo? O puritanismo nunca foi sobre salvar almas. É a blindagem de santidade que esconde a podridão. A Bíblia sequestrada não serve para expiar pecados: serve para apontar o pecado alheio enquanto se absolve a própria canalhice. O fariseu não mudou de roupa — só trocou a sinagoga pelo estúdio de TV.

A segunda cláusula é o racismo como tecnologia de controle. Corpos periféricos são os primeiros enviados às Colônias — trabalho escravo e morte certa sob retórica ufanista de “segurança nacional”. No Brasil, a mesma engenharia opera quando a extrema direita critica a violência na periferia enquanto desmonta os mecanismos de combate ao racismo. Blindar o topo branco enquanto sangra a base: a geometria do poder não mudou desde o século XVII. A escravidão apenas trocou de nome — e de maquiagem. Hoje se chama “empreendedorismo”, “mérito” ou “a pessoa que escolheu”. O verniz muda, a corrente é a mesma.

A terceira cláusula é a caça às “traições de gênero”. Ser LGBTQIA+ em Gilead é crime capital punível com morte ou mutilação em praça pública. O manual foi importado da Rússia e da Hungria — os faróis morais dos nossos moralistas de exportação, que vendem perseguição como “defesa da família”.

Eis as duas ironias mais afiadas que a série nos legou. A primeira é geopolítica: quando o paraíso autoritário desaba sob o peso da própria hipocrisia, para onde fogem os oprimidos? Para o Canadá. O vizinho democrático, pluralista e progressista. Na hora do desespero, ninguém busca abrigo no autoritarismo — corre para o colo do Estado de Direito. Os fundamentalistas podem sonhar com o poder, mas quando precisam sobreviver, batem na porta dos inimigos que juraram destruir.

A segunda está gravada no rodapé de um armário. Nolite te bastardes carborundorum. Latim macarrônico que significa: “Não deixe os bastardos te esmagarem”. A frase foi deixada por uma aia que se enforcou para não ceder ao abuso do Comandante — e tornou-se o combustível da resistência de June, a prova de que, por mais que o fundamentalismo ocupe o palácio com Bíblia e metralhadora, a faísca da revolta sobrevive no escuro e prolifera no chão da senzala.

O que a extrema direita quer não é apenas governar. É administrar o útero, o leito, a pigmentação da pele e o conteúdo do pensamento alheio — e vender tudo isso como “ordenamento divino”. Assistir ao Conto da Aia na Netflix com pipoca é acreditar que a tela separa a ficção da realidade. Não separa.

Esta coluna não é spoiler. Não poderia ser. Porque o lixo da extrema direita é muito maior, mais sórdido e mais criativo na crueldade do que seis temporadas conseguem mostrar. O que está na tela é apenas a vitrine. O estoque inteiro do fundamentalismo — desse, sim, você ainda não viu nem metade.

Então, se você ama a liberdade — se ainda acredita que o corpo, a cama, a pele e o pensamento pertencem a quem os habita — dê o play. Antes que as fronteiras para o nosso Canadá particular se fechem de vez.

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