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Coluna Marcelo Moryan

Coluna Marcelo Moryan: Guarapari: o turismo aprende a respirar

Por Redação Folhaonline.es
Praia da Bacutia – Enseada Azul. Foto: Marcelo Moryan

Dizem que o guarapariense tem uma mania incurável de comparar o turismo local com o resto do mundo. Se o turismo em outras montanhas é referência, olham para as serras locais com desconfiança—mesmo tendo o mar como herança. Mas há um detalhe que muda tudo: Guarapari finalmente parou de tentar imitar para descobrir que o verdadeiro milagre está em fazer o ordinário funcionar todos os dias.

O sinal mais claro dessa transformação não está nas estatísticas oficiais da prefeitura, mas na fila daquele estabelecimento que há cinco anos era um set de filmagem abandonado fora de janeiro. Hoje, o sorvete de preço “salgado” vende como água em pleno dia útil de outono. O proprietário confirmou o que os olhos já viam: o frequentador de “todos os dias” sustenta o comércio melhor que qualquer caos sazonal. Um modelo de negócio replicável vale mais que o incêndio de uma semana de carnaval. E essa descoberta não é acaso; é estratégia institucionalizada.

Por trás dessa mudança está a Secretaria de Turismo, sob liderança de Fernando Otávio, transformando a ideia de “temporada” em arquitetura durável. Um calendário anual de eventos preenche os meses vazios; a Rota da Ferradura integra as montanhas com restaurantes locais; famtours e roadshows nacionais e internacionais vendem a cidade para fora. O Plano Municipal segmenta públicos de alto valor, evitando a panfletagem genérica. Prospectores miram em qualidade, não em volume.

Enquanto muitos olhavam apenas para o mar, o interior aprendeu a usar seu DNA. Polenta servida em altitude, festas que consolidam identidade—não são eventos isolados. A 5ª Festa da Imigração Italiana de Buenos Aires nas Montanhas de Guarapari, que encerra neste domingo, representa exatamente isso: a respiração contínua de uma cidade que compreendeu que o visitante de verdade não vem durante um fim de semana artificialmente preparado; vem porque há razão para estar lá em maio, setembro, março.

Mas há um hiato. Uma cidade que atrai turistas gourmet para diversos eventos precisa oferecer-lhes um caminho decente para chegar lá. A Secretaria reconhece isso: “Há articulação institucional via Conselho Municipal de Turismo (COMTUR) que integra demandas turísticas na agenda de obras. Em 2026, foram entregues reparos de pavimentação em avenidas e acessos a comunidades turísticas”. Segundo o Secretário: “O diálogo entre Turismo e Obras deixou de ser ficção: quando se planeja uma festa, comunica-se a necessidade de asfalto; o cronograma de obras prioriza trechos com alto fluxo de turistas”.

Particularmente, como amante de Guarapari, acho fascinante como a cidade consegue ser tão bela, atraente e, simultaneamente, oferecer um rali gratuito para quem ousa dirigir por aqui (nos moradores que o digam). Talvez o asfalto remendado seja estratégia sensorial: dirija devagar e aprecie a vista por mais tempo. Se for, parabéns, está funcionando.

Guarapari deixou de ser a cidade que “abre e fecha”, que olha pelo retrovisor. Agora é a que acontece—com sotaque próprio, identidade visual que fala sozinha, e um calendário que não pede permissão para bater à porta do visitante em março ou outubro.

MAS FICA O ALERTA: O turista de hoje não quer apenas uma bela praia, uma montanha maravilhosa e um sorvete caro; quer chegar ao destino sem trocar o amortecedor no dia seguinte—e principalmente, quer uma razão real para voltar. Quando Guarapari resolver que o asfalto é tão importante quanto o horizonte, nem precisará mais se comparar com ninguém. Porque ninguém mais estará olhando para trás—inclusive este colunista, cidadão guarapariense, que tanto ama e divulga sua bela cidade.

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