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Coluna Marcelo Moryan

Coluna Marcelo Moryan: Ponto dos Mentirosos

Por Redação Folhaonline.es
Ilustração: Marcelo Moryan

Foi lá, no Ponto dos Mentirosos, que Lula e Flávio Bolsonaro se encontraram — não literalmente, a vila não resistiria a tanta cara de pau simultaneamente. O encontro foi o que a crônica política adora: dois lados jurando de pés juntos que desconheciam Daniel Vorcaro, ambos desmentidos pelos próprios registros em questão de dias.

O lugar existe. Fica em Caraíva, Porto Seguro, na Bahia, onde pescadores inventam histórias ao fim da tarde. Sempre foi inofensivo até a industrialização da mentira chegar: facções, toque de recolher, paraíso rústico transformado em postal de um fantasma. Mas esse engano é menor.

O que importa é o espelho que os dois oferecem ao eleitor: enquanto disputam sua alma, brindam com o mesmo capital que não tem ideologia.

Flávio operou a transmutação em tempo real. O “desconhecido” Daniel Vorcaro virou “irmão” de diálogos íntimos. Antes dos áudios: negação. Depois: “transparência institucional”. É o cinismo como política pública. O senador vendeu a inocência que não tinha.

Mas o circo respira em dois pulmões. Lula também negou conhecer o banqueiro até receber a mesma figura no Palácio do Planalto — reunião sigilosa, ausente da agenda, sem registro. O presidente da República, “alma mais honesta do país”, esqueceu que fantasmas também cobram entrada. Um disse “não conheço”. O outro disse “nunca vi”. O sotaque é diferente. O gesto é idêntico — o de quem aposta na amnésia eleitoral.

Essa metamorfose de Flávio, com Lula orbitando o mesmo ecossistema, expõe o óbvio: a polarização é cortina de fumaça. Enquanto famílias se fragmentam por “ideais”, os protagonistas brindam com capital sem cor. O político aprende a mentir como respira; o engano de Flávio sobre Vorcaro não foi erro, foi protocolo.

Devemos resgatar Diógenes — o filósofo grego que perambulava com uma lanterna acesa ao meio-dia — procurando “um homem honesto”. Ele sabia que o poder corrompe por natureza. Peneirar a política não é torcer por um clube; é ceticismo higiênico. Spinoza tinha razão: “o homem é livre na medida em que compreende as causas de suas ações”. Em Brasília, a causa mora em um cofre.

Não desperdice briga com seu irmão. O inimigo é quem chama banqueiro suspeito de “irmão” pelas costas. A “bizarrada” do Banco Master é o espelho da nossa tolice. Vista a política com a distância crítica de um mercado, não com a paixão de um culto.

Peneire as promessas. Filtre as indignações seletivas. Apague a luz do fanatismo. Se o político esquece quem conhece em minutos para se salvar, certamente não hesitará em esquecer você quando as urnas forem lacradas.

Na política, não importa se é Lula, Flávio, Beltrano ou Cicrano — sempre teremos que escolher o mentiroso mais honesto. Para você, qual deles é?

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