
Para quem aprendeu a ler a realidade através da anatomia do que resta — onde o verniz das aparências descasca diante da frieza do mármore — observar certas batinas é como realizar a necropsia de uma espiritualidade em decomposição. No IML da vida, o hábito não apenas não faz o monge, como muitas vezes é o que resta dele quando a alma já apodreceu. Sob o império dos algoritmos de madrugada, temos os “versos satânicos” de um catolicismo que trocou o Evangelho pelo porrete moralista — satânicos no sentido etimológico: aquilo que divide, acusa e separa.
O Padre Zezinho SCJ identificou brilhantemente o diagnóstico: “Vi uma postagem na qual um pregador católico desanca várias religiões, dando a entender que só os católicos estão certos. Uma coisa é estarmos certos em muitas coisas e outra é pregar que só nós estamos certos. Isto é semear ódio.”
Curiosamente, o Vaticano II — com seus 16 documentos, 4 deles sobre respeito a outras religiões — parece estar em idioma estrangeiro para o “Frei”. Por que se incomodar com concílios quando se pode construir impérios pessoais sobre ruínas alheias? Os Papas João Paulo II, Francisco e Leão XIV dialogam com outras igrejas conseguindo discordar sem ofender — um exercício de inteligência teológica em extinção em certos púlpitos. O “Frei” prefere a abordagem dos juízes medievais: condenar primeiro, pensar depois.
A redução da mulher à condição de “auxiliar do homem” é um atestado de ignorância linguística disfarçada de exegese. No hebraico bíblico, ezer — termo que o “Frei” manipula com destreza de prestidigitador — descreve o próprio Deus como “auxílio” da humanidade. Ao tentar instaurar patriarcado em Gênesis 2:18, o “Frei” não prega a Bíblia; rebaixa a imagem do Criador a papel subalterno. É misoginia travestida de teologia, ignorando que Cristo — aquele que fingem seguir — foi o maior “cancelador” de purismos da história, dialogando com samaritanos e defendendo mulheres adúlteras enquanto os fariseus espumavam de raiva.
Padre Fábio de Melo observou que o hábito e o rosário tornaram-se verniz de pessoas diabólicas que se escondem atrás de espiritualidade de fachada para oprimir. No necrotério da moral, o rosário na mão de quem semeia ódio é apenas joia macabra. Jesus foi implacável com essa encenação ao chamar os rigoristas de “sepulcros caiados”: bonitos por fora, cheios de ossos podres por dentro.
Mas o “Frei” revela sua verdadeira natureza ao afirmar que curas em outras religiões são “obra do diabo” — pico de soberba sectária que ignora Marcos 9:38-40: “Quem não é contra nós, é por nós”. Demonizar o alívio do próximo é a obra mais satânica que um clérigo pode realizar.
Padre Fábio Marinho sintetizou com precisão: “Hoje tudo é o diabo, céu ou inferno; parece que voltamos à Idade Média e queremos doutrinar pelo medo.”
Quando tudo se reduz a terror psicológico, não estamos diante de pastor — estamos diante de manipulador que voltou à Idade Média. A falta de caridade teológica é tão evidente que o próprio Catecismo grita contra isso.
Enquanto o “Frei” condena tatuagens como marcas do Anticristo, ele ignora: “O que contamina o homem não é o que entra pela boca [ou se marca na pele], mas o que sai do coração” (Mateus 15:11). A ironia é deliciosa: está tão obcecado em condenar a tinta alheia que não vê a gangrena em sua própria alma.
Para quem conhece a profundidade do silêncio final, resta apenas a ironia suprema: o rigorismo é o rigor mortis de uma fé que parou de respirar amor para exalar julgamento. E quando a respiração cessa, sobra apenas o corpo — aquele hábito pendurado em cabideiro, esperando pela necrópsia.
Salman Rushdie, autor de Versos Satânicos, precisou de uma fatwa islâmica para ser condenado. Frei Gilson e seus similares se condenam sozinhos a cada pregação — ainda acreditando que salvam almas.