
(Alguns leitores juram que sou de esquerda; outros, com a mesma convicção, me rotulam à direita. A verdade, contudo, é que sou apenas imparcial — e a imparcialidade costuma ser o pesadelo de quem vive de dogmas. Quer uma prova? Ouse chegar até o final desta coluna. Tem uma surpresinha lá para quem tiver estômago.)
Chibata Nele:
Confesso uma ignorância que me envergonha menos do que deveria: até esta semana, o nome de Marcos Sampaio Olsen me era tão estranho quanto o silêncio de um necrotério ao meio-dia. Não sabia se era almirante, ministro ou apenas mais um burocrata entocado em algum gabinete climatizado e corrupto de Brasília. Sabia, contudo, quem foi João Cândido Felisberto. E soube muito antes que qualquer instituição oficial — essas que sofrem de uma catarata seletiva para a história — resolvesse admitir o óbvio.
João Cândido não era almirante – embora fosse conhecido carinhosamente como o “Almirante Negro”, não portava medalhas de salão, nem dominava a retórica vazia dos intelectuais de gabinete. Era um marinheiro negro que, aos 30 anos, aprendeu a ler a realidade nas cicatrizes abertas pela brutalidade. Em 1910, enquanto a Marinha “civilizada” ainda usava o lombo alheio como pergaminho para sua disciplina de senzala, ele decidiu que o couro não encontraria mais repouso no convés.
A revolta não foi um pedido de licença; foi um ultimato. João Cândido assumiu o comando dos encouraçados Minas Geraes e São Paulo, apontando os canhões para o Rio de Janeiro. Não era um motim de “abjetos”, como quer a farda atual, mas a primeira vez que o Estado brasileiro sentiu o cano frio da própria violência encostado na têmpora. A elite, que até então assistia ao espetáculo do lombo retalhado como quem assiste a uma ópera, descobriu subitamente que o ferro também fala — e em mãos negras, ele não gagueja.
A resposta da instituição foi a de sempre: a traição cirúrgica. Hermes da Fonseca, com a caneta ainda úmida da promessa de anistia, esperou apenas que as armas fossem depostas para revelar o DNA do poder brasileiro. O perdão virou masmorra, o manicômio e o expurgo. João Cândido morreu na miséria em 1968, provando que 99,9% dos governantes são, por ofício, traíras profissionais — mudam as fardas, mas o cupim da deslealdade é o que sustenta a estrutura.
Corta para abril de 2024. Olsen — branco, fardado, encastelado no comando atual da Marinha — resolveu empunhar a caneta com o mesmo vigor com que seus antepassados empunhavam o azorrague. Em carta à Câmara, insurgiu-se contra a inscrição de João Cândido no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. Chamou a revolta de “página deplorável”, classificou os marinheiros como “abjetos” e argumentou que homenageá-los seria endossar a insubordinação.
É fascinante a lógica de quem nunca sentiu o peso do couro na pele. Olsen defende a hierarquia sobre o cadáver de Marcelino Rodrigues, que recebeu 250 chibatadas antes de o estopim ser aceso. Para o comandante, o “abjeto” não é o oficial que ordena o suplício, mas o corpo negro que ousa não se deixar retalhar. O racismo aqui não é um “mimimi” de rede social; é prática institucional, destilada em papel timbrado, mantida sob sete chaves e fardas engomadas.
O Ministério Público Federal reagiu, e a sentença veio na última quarta-feira, 20 de maio de 2026. O juiz Mario Victor Braga Pereira condenou a União a pagar R$ 200.000 por dano moral coletivo. Uma quantia irrisória, um “cala-boca” jurídico que mal paga o verniz das botas do almirantado. O magistrado determinou que a Marinha se abstenha de termos pejorativos, mas não proibiu sua “interpretação histórica”. É a velha equação brasileira: admite-se a ferida, mas preserva-se a faca. Pinta-se a fachada da instituição enquanto o cupim do preconceito devora as vigas de sustentação.
A memória popular, no entanto, é mais teimosa que o Diário Oficial. O nome do marinheiro que enfrentou a Esquadra sobreviveu sem o aval de Brasília ou do Almirantado. Já o nome do comandante que o chamou de abjeto? Esse eu precisei pesquisar. E, para quem gosta de uma ironia fina, basta um “Google” rápido para descobrir quem assinou a nomeação de Olsen para ser o chibateiro-mor em 2023. Sim. Ele mesmo. O mesmo sistema que discursa sobre inclusão enquanto escala o carrasco para cuidar da senzala institucional. A chibata agora é feita de palavras, mas o estalo ainda ecoa.
A pergunta que resta não é sobre o passado, mas sobre o presente que insiste em não passar. Para quem olha para a história e ainda enxerga no chicote um instrumento de ordem, e no revoltado um ser abjeto… o que resta prescrever?
Na minha humilde opinião: CHIBATA!