
Se você ainda nutre algum apreço pela integridade das suas sinapses — ou se sua pressão arterial já não suporta o peso da realidade — evite o trânsito em Guarapari.
Ou em qualquer outra cidade.
E não se engane: o caos motorizado não é um evento com hora marcada. Ele é onipresente. Ignora solenemente o conceito de “horário de pico” como quem ignora uma lei que nunca existiu de verdade. A menos que deseje um assento na primeira fila de um safári antropológico gratuito — onde a única lei vigente, em qualquer turno do dia, é o salve-se-quem-puder biológico.
Fomos submetidos, nos últimos anos, ao bombardeio do discurso gourmet da “mobilidade sustentável”. Essa cosmética verbal que prometia a redenção das cidades através de bicicletas elétricas e motocicletas. Pense bem: r-e-d-e-n-ç-ã-o. Como se as ruas fossem templos que precisassem de salvação.
O resultado dessa engenharia do desatino é um formigueiro humano desordenado, onde o trânsito não flui. Ele simplesmente se amontoa e mofa em uma estagnação metafísica que desafia as leis da física. Nossas autoridades parecem acreditar piamente na elasticidade da matéria — como se o asfalto fosse feito de borracha ao tentar comprimir centenas de veículos onde mal cabiam algumas dúzias.
Mas as condições precárias das vias — buracos, fissuras, pavimentação deteriorada — transformam essa ilusão em pesadelo concreto. O asfalto não apenas não se estende. Ele desmorona. E enquanto isso, gasta-se mais tempo hoje para rodar dois quilômetros do que na época em que o meio de transporte mais rápido da cidade era a carroça. Essa é a medida exata do nosso retrocesso.
A receita do caos urbano ganhou ingredientes extras: nuvens de motocicletas costurando retrovisores, bicicletas elétricas, patinetes e outras doiderias lançadas ao picadeiro sem qualquer critério. Estes novos atores disputam milímetros com carros de duas toneladas enquanto seus condutores — geralmente desprovidos de capacete — mergulham na hipnose das telas de celular. Pergunto: em que momento decidimos que a tecnologia poderia substituir o bom senso?
O trágico é que essa paralisia não é uma exclusividade capixaba. É uma patologia nacional que confunde tecnologia com lógica. A tal mobilidade urbana, do jeito que nos venderam, tornou-se uma fantasia para consumo externo. Um espetáculo de ilusionismo urbano onde todos fingem acreditar que o problema será resolvido por um aplicativo.
As cidades que minimamente funcionam no mundo não precisaram importar soluções da Nasa. Elas apenas aplicaram a disciplina elementar do jardim de infância: a segregação espacial. É o básico do básico. O automóvel ocupa a via. O transporte coletivo sua faixa exclusiva. A bicicleta a ciclovia. Separados por barreiras físicas — não por “pensamentos positivos” ou orações governamentais.
No Brasil, entretanto, preferimos a charmosa política do “Deus dará”, onde a omissão do Estado abre caminho para a barbárie. O trânsito tornou-se o império do zigue-zague. A seta? Um anacronismo desprezado. Corta-se pela direita com a naturalidade dos predadores e quem decide respeitar as faixas assume o papel de otário do dia, sumariamente fechado ou brindado com um concerto de buzinas histéricas.
Enquanto a realidade derrete, as autoridades permanecem encasteladas em gabinetes climatizados, projetando a “cidade do futuro” em PowerPoints coloridos e estéreis para deleite de congressos internacionais. Nas ruas, a fiscalização é uma lenda urbana — algo de que se ouve falar, mas que ninguém jamais testemunhou. A certeza da impunidade é o combustível que alimenta o motorista folgado e o motoqueiro abusado.
O diagnóstico aqui é puramente niilista: o problema não é a falta de carros voadores ou de aplicativos de última geração. É a ausência de ordem, autoridade e asfalto de verdade. Estamos tentando vender o trânsito do amanhã sem termos entregue o feijão com arroz do ontem. Essa fantasia de modernidade só serve para mascarar a nossa incapacidade de gerir o óbvio.
O resultado é essa massa amorfa de fumaça e nervos à flor da pele, onde a única coisa que realmente se move rápido é a nossa paciência — em fuga acelerada para o espaço.